Autores: Andressa Cristina Sposato Louzada (apresentadora), Pedro Puech-Leão, Nelson De Luccia e Erasmo Simão da Silva

Instituição: Serviço de Cirurgia Vascular e Endovascular do HCFMUSP – LIM02

Contexto: Apesar de vários estudos relacionados ao risco de maior expansão e rotura de aneurismas da aorta abdominal (AAA) em mulheres, o tema permanece controverso e sem uma causa conhecida que explique esse comportamento clínico.

Objetivo: Comparar a resistência e elasticidade de fragmentos de aneurismas da aorta abdominal, por meio de testes biomecânicos destrutivos uniaxiais. Estes fragmentos foram removidos da parede anterior do saco aneurismático de homens e mulheres, operados pela via aberta, para análise comparativa.

Método: Análise retrospectiva de resultados de testes biomecânicos realizados em espécimes colhidos de 119 pacientes submetidos a reparo aberto de AAA. Dois grupos, sexo masculino e feminino, foram constituídos e os parâmetros biomecânicos analisados foram: tensão de falência e deformação de falência dos espécimes submetidos à tração.
As variáveis relacionadas aos grupos foram: idade, diâmetro transverso máximo do AAA, histórico de hipertensão arterial (HAS), diabetes (DM), insuficiência coronariana (ICO) e tabagismo.

Resultados: A amostra de população estudada foi composta por 119 indivíduos, sendo 32 do sexo feminino (26.89%) e 87 do sexo masculino (73.11%). As 75.86% das amostras de aorta obtidas da população masculina e 84.38% da população feminina eram de aneurismas íntegros operados eletivamente (p=0.319).
A média da idade dos indivíduos do sexo masculino foi 65.4 anos (95% CI 63.96107 – 66.93548) e do sexo feminino foi 69.2 anos (95% CI 66.59176 – 71.78324), sendo que a diferença de idade entre os grupos foi estatisticamente significativa (p=0.0143).
Quanto às comorbidades estudadas, os grupos são comparáveis, não havendo diferença estatisticamente significativa entre os sexos (Tabela 1).
Quanto às características dos aneurismas, também não houve diferença estatisticamente significativa entre os sexos, sendo similares as medianas do diâmetro transversal máximo, da espessura da parede, da tensão de rotura e da deformação de falência (Tabela 2).
Nas regressões lineares multivariadas da tensão de rotura e da deformação de falência, não houve nenhuma correlação com significância estatística com: idade, sexo, tabagismo, hipertensão arterial sistêmica ou doença arterial coronariana.
À análise de possíveis preditores para a tensão de rotura e para a deformação de falência, controlando-se por sexo, idade, tabagismo, diabetes, doença arterial coronariana, hipertensão, diâmetro, espessura, foram encontradas correlações distintas nas aortas masculinas e femininas.
Nas aortas masculinas, foi encontrada correlação linear positiva entre tensão de rotura e espessura da parede, com coeficiente de 7.4467 (CI 95% 3.2200 – 11.6734; p<0.01), e uma tendência de correlação linear com o diâmetro (p=0.053).
Já a deformação de falência das aortas masculinas, teve correlação linear positiva com a espessura da aorta, com coeficiente de 9.9413 (95% CI 2.9898 – 16.8927; p<0.01) e com diabetes mellitus, com coeficiente de 13.81967 (95% CI 4.092052 – 23.54729; p<0.01).
Em contraste, nas aortas femininas não foram encontradas correlações estatisticamente significativas entre tensão de rotura e espessura ou diâmetro, ou entre deformação de falência e espessura ou diabetes mellitus, mas somente entre a tensão de rotura e a deformação de falência, com coeficiente de 0.2899 (CI 95% 0.1592 – 0.4205; p<0.01).

Conclusão: Nos testes biomecânicos uniaxiais destrutivos de fragmentos da parede anterior do saco aneurismático de homens e mulheres não se encontrou diferença significativa quanto aos valores de resistência e elasticidade. No entanto, ao se analisar possíveis fatores clínicos e biomecânicos que contribuíssem para os valores encontrados, foram encontradas diferenças entre os sexos.
Nos homens, a tensão de rotura e a deformação de falência aumentam conforme a espessura da parede da aorta, e a deformação de falência se correlaciona positivamente também com diabetes mellitus. Já nas mulheres, essas correlações não se provaram estatisticamente significativas, porém foi encontrada uma correlação linear positiva significativa entre tensão de rotura e deformação de falência, ausente nos homens.

Comentador: Dr. Otávio Henrique Ninomiya
Cópia de sbacvsp_30.09.2020_trabalho02