Avanços em terapias endovasculares enfrentam barreiras regulatórias, financeiras e estruturais, exigindo estratégias éticas e formação especializada

A incorporação de tecnologias avançadas em Cirurgia Vascular, como endopróteses customizadas, novos stents e terapias endovasculares, ainda ocorre de maneira mais lenta no Brasil quando comparada aos Estados Unidos e à Europa Ocidental. Segundo o cirurgião vascular e vice-presidente da SBACV-SP, Dr. Antonio Eduardo Zerati, essa diferença decorre principalmente de barreiras regulatórias e econômicas. “A aprovação pela Anvisa costuma ser mais demorada do que a dos órgãos reguladores internacionais, e o custo elevado desses dispositivos limita sua adoção, especialmente no SUS”, explica. Para ele, critérios de efetividade clínica comprovada, segurança e relação custo-benefício são essenciais para definir o momento adequado de adotar uma nova tecnologia.

No SUS, os obstáculos vão além da questão financeira. A criação de protocolos, a necessidade de estudos clínicos robustos e a definição de grupos específicos de pacientes que realmente se beneficiam dessas tecnologias tornam o processo mais lento. “Toda nova tecnologia precisa de comprovação científica sólida para justificar seu uso em larga escala”, afirma Dr. Zerati. Esse desafio também se estende à saúde suplementar, onde a adoção depende do Rol da ANS e envolve não apenas evidências científicas, mas também avaliações econômicas consistentes. Segundo o médico, o papel dos especialistas é decisivo nesse processo: “Cabe a nós propor novas tecnologias à ANS, desde que existam evidências clínicas e econômicas que sustentem essa demanda. E considero mais adequado que isso seja feito por entidades representativas, como o CFM e a SBACV”.

Além do papel junto à ANS, o fortalecimento das sociedades médicas regionais também é fundamental para apoiar a adoção racional de novas tecnologias e disseminar conhecimento entre os especialistas. Neste contexto, Dr. Zerati destaca: “A SBACV já produziu diretrizes para guiar o tratamento de diversas doenças circulatórias. No dia 30 de outubro, fui eleito para presidir a SBACV-SP a partir de janeiro de 2026 e, juntamente com o Prof. Dr. Edwaldo Joviliano, recém-eleito presidente da SBACV Nacional, poderemos atuar em parceria. Tenho a intenção de criar uma diretoria especial de saúde pública e suplementar para estudar avanços neste assunto.”

Nos casos em que a tecnologia superior não é coberta pelo SUS ou pelos convênios, Dr. Zerati reforça que a postura ética do médico deve permanecer central. “Nos cabe oferecer nossa opinião técnica baseada nas melhores evidências. A decisão de judicializar é pessoal e não faz parte da atividade médica estimular ou inibir esse caminho”, diz.  Em sua opinião, o compromisso do cirurgião é buscar alternativas seguras dentro da realidade disponível, sem abrir mão de oferecer a melhor assistência possível.

Ao analisar soluções personalizadas, como endopróteses customizadas, o especialista ressalta que o custo elevado limita seu uso, que deve ser reservado aos casos em que as opções padronizadas não atendem à anatomia ou à complexidade do paciente. Ele lembra que o Registro Nacional de Implantes (RNI), criado pela Anvisa, ainda se concentra em próteses ortopédicas e stents coronarianos, sem abranger de forma ampla os dispositivos vasculares, lacuna que dificulta avaliações nacionais de efetividade e rastreabilidade.

A formação adequada dos profissionais é outro ponto fundamental para ampliar o acesso a tecnologias avançadas. E o primeiro passo é disseminar conhecimento técnico, tanto teórico quanto prático. Dr. Zerati destaca que eventos como o CISP e o SPecializando já impulsionam essa missão, mas sua proposta é expandir ainda mais esse alcance: “Quero abrir e divulgar as reuniões científicas da Regional São Paulo para todas as outras regionais do Brasil”. Ele reforça também a importância de aproximar o cirurgião vascular das novas técnicas em parceria ética e transparente com a indústria.

Em âmbito institucional, hospitais públicos e privados podem otimizar recursos ao investir em equipes bem formadas, estimular atualização contínua e adotar protocolos baseados em evidências. “Mesmo quando o procedimento é bem executado, tudo se perde se não houve pertinência”, alerta. Ele acrescenta que consórcios de compra e negociações centralizadas podem melhorar a capacidade de aquisição sem comprometer o orçamento.

Dr. Zerati deixa uma mensagem aos cirurgiões vasculares que lidam com negativas de cobertura ou limitações de infraestrutura. Ele lembra que a adoção de tecnologias de ponta ocorre de forma gradual e, muitas vezes, é restrita a centros de maior complexidade. “Estudem, atualizem-se sempre. Preparem-se para utilizar tecnologias avançadas, mas sem abandonar as técnicas convencionais. Se faltar preparo ou estrutura, encaminhe o paciente a um grande centro habilitado. Improviso consome recursos e tem resultado imprevisível”. E conclui com um alerta de cidadania: “A responsabilidade com nossos pacientes vai além do consultório. É fundamental eleger autoridades comprometidas com o bom uso dos recursos públicos e cobrar delas ações concretas.”

Dr. Antonio Eduardo Zerati