Dra. Lidiane Rocha compartilha seus hábitos e escolhas que equilibram o bem-estar e a prática clínica
A rotina médica costuma ser intensa. Entre agendas cheias, decisões rápidas e pouco espaço para pausas, o lugar onde se vive deixa de ser apenas pano de fundo e passa a interferir diretamente na forma como se atravessa o dia e se recuperam as energias. Em São Paulo, essa relação se intensifica. Uma cidade que desafia quem passa, mas acolhe quem decide ficar.
Para a Dra. Lidiane Rocha, a decisão de morar em São Paulo passa justamente por características que costumam afastar outras pessoas. “As coisas que mais me atraem na cidade são, muitas vezes, as mesmas que cansam outras pessoas.” A impessoalidade típica da capital, para ela, se traduz em liberdade. “Aqui você é livre para ser quem é, sem precisar se explicar o tempo todo. Isso, para mim, é libertador.”
Na sua vida, não há uma separação rígida entre consultório e cidade, nem entre trabalho e lazer. “Eu me divirto trabalhando, e isso já é uma forma de prazer.” São Paulo atravessa essa dinâmica de forma constante: vibrante, intensa, com tudo acontecendo ao mesmo tempo. “É uma cidade que não dorme e oferece possibilidades quase infinitas.”
E o que mais a fascina é o encontro permanente de culturas, sabores, ideias e formas diferentes de enxergar a vida. “Isso estimula, provoca, amplia o olhar. Circular pela cidade é também criar, experimentar e observar. Eu costumo brincar que São Paulo é o quintal da minha vida. É onde tudo pode acontecer. Tudo o que eu quero fazer, existe aqui. E é dessa energia que vem, muitas vezes, as recargas silenciosas do dia a dia”.
Moradora dos Jardins, a Dra. Lidiane valoriza o cotidiano do próprio bairro. Para ela, São Paulo funciona como um conjunto de pequenas cidades, cada uma com sua cultura, seus hábitos e suas pessoas. É nesse dia a dia simples, passeando com o cachorro, reconhecendo rostos, trocando cumprimentos que se constrói uma sensação real de pertencimento. “No Jardins, esse acolhimento se manifesta em lugares como a Osteria Altruísta, onde o cuidado atento do Ademar, o atendimento constante e os rótulos interessantes, muitas vezes inusitados, transformam o restaurante em extensão da rotina”, ressalta.
O centro e seus rituais
Circular por outros locais da cidade também faz parte dos hábitos da Dra. Lidiane. “Para mim, o centro exerce um encanto particular. Amo o Mosteiro de São Bento, e comprar o pão ali, comer no próprio mosteiro ou levar para casa para um café da manhã simples, faz parte do meu ritual. O Café Girondino carrega a memória da São Paulo dos barões do café e oferece um brunch que remete a outros tempos, quase como um respiro histórico em meio à correria. Já o Farol Santander revela uma vista fascinante, um lugar onde é possível interromper o ritmo da cidade por alguns minutos ou até por alguns segundos”, revela.
Ali perto, no Mercado Municipal, surgem programas absolutamente despretensiosos e cheios de vida, como indica a Dra. Lidiane: petiscar na Banca do Ramon em um sábado à tarde, ouvir o som do saxofone ao fundo, ser atendida pelo cuidado do Robson e Nete, e ainda encontrar os proprietários Ramon e Adonis. Tudo isso cria uma experiência simples e, ao mesmo tempo, surpreendente, inclusive a adega, que abriga o maior acervo de Petrus da cidade de São Paulo, sempre tratada com naturalidade, sem ostentação.
Outros bairros, outros cuidados
O Itaim também marca presença na rotina da Dra. Lidiane: o Gero, na Rua Pedroso Alvarenga, se destaca pela cozinha impecável e atendimento atento. Conversar sobre vinhos com Manuel Beato, do Grupo Fasano, transforma um almoço ou jantar em uma experiência de degustação e troca. Pinheiros, com seu charme, se revela no Bistrô Charlot, onde o maître Giovanni cria experiências únicas para cada mesa. Há ainda programas que misturam charme e cotidiano, como ir à CEAGESP de madrugada, escolher flores e parar para uma sopa de cebola. “É São Paulo em estado bruto, funcionando de verdade”, comenta a médica.
A cidade também oferece possíveis pausas, mesmo entre compromissos. Pequenos intervalos em que o tempo desacelera e o olhar se reorganiza. O Museu da Imagem e do Som permite visitas breves e suficientes, complementadas pelo Pipo Restaurante, dentro do próprio museu, com comida leve e ambiente contemplativo. Na Avenida Paulista, a Casa das Rosas e a Japan House São Paulo funcionam como refúgios discretos. A Pinacoteca de São Paulo entrega encontros potentes mesmo em recortes rápidos. Para encerrar o dia, o The View, no rooftop do Transamérica Executive Paulista, oferece um fechamento gentil, com a cidade vista de cima.
Alguns programas pedem tempo ampliado. A CASACOR São Paulo é um deles: “Reservo um dia inteiro. Caminho devagar, observo os espaços, revisito o olhar, deixo que a luz, os materiais e as proporções falem por si. Sem pressa. Sem outra finalidade além dessa: estar diante do belo, apenas porque ele é belo”, afirma.
Áreas verdes completam o equilíbrio. O Parque Trianon, em frente ao MASP, funciona como um botão de silêncio; o Parque da Aclimação organiza corpo e mente durante a corrida; e o Parque do Carmo, especialmente na época das cerejeiras, oferece outro tempo. Já o Parque Ibirapuera revela sua face mais interessante à noite. “É ali que eu patino com meus filhos. O parque se transforma em território de patinadores e skatistas, muitos deles extremamente experientes, verdadeiros matreiros do movimento. Observando, aprendendo e treinando, a gente também faz aula e aprimora a técnica com o professor Corvo, um mito dos patins, referência absoluta para quem leva a modalidade a sério”, destaca.
Do sábado para o domingo, quando o parque permanece aberto durante a madrugada, essa dinâmica se prolonga. “Entre uma conversa e outra, alguém sugere uma comida, outro traz alguma coisa, alguém dá uma dica. Sem combinar, vira um piquenique. Essa tribo acaba ficando próxima, quase familiar. Tudo nasce da convivência, do treino, do tempo compartilhado”, avalia.
Essa atenção se estende à vida cotidiana e aos congressos: “Sempre que possível, levo minha filha comigo. O trabalho vira também convivência, troca, presença. O descanso acontece enquanto organizo a casa, reformo, mudo, construo. Eu adoro trabalhos manuais. Gosto de obra, de materiais, de pensar soluções com as mãos e com os olhos. Isso ocupa a minha mente de um jeito muito saudável. Para mim, é uma forma genuína de ócio criativo.”
Talvez por isso conheça tão bem certos territórios da cidade. Um dos passeios favoritos é a Rua do Gasômetro. “Ali existe um universo de madeiras, ferragens, ferramentas, puxadores, acessórios. Objetos que não precisam ser vistos apenas pelo uso óbvio. Caminhar por ali é observar possibilidades.” O mesmo acontece na Santa Ifigênia e na Rua 25 de Março, onde detalhes técnicos, soluções e objetos inspiram sua prática médica, inclusive no desenvolvimento de dispositivos de compressão extrínseca. Lugares como a Willer-k completam esse universo de texturas, tecidos e combinações.
Ao longo do tempo, essa forma de viver, sem separar rigidamente trabalho, descanso e vida pessoal, se consolidou como um jeito próprio de atravessar a rotina. Um arranjo construído na prática, atento aos limites, às necessidades e ao momento de cada dia. “No fundo, a busca é por equilíbrio. Ainda estou buscando o meu, como todo mundo. A vida, para mim, não acontece em blocos, mas em fluxo contínuo, mais acelerado quando precisa, mais contemplativo quando dá.”
E talvez seja exatamente isso que sustente a rotina médica a longo prazo: “Cuidar da vida cotidiana com presença é o que mantém a profissão viva.” Como boa interiorana, Dra. Lidiane ainda lembra da dupla Alvarenga e Ranchinho, que cantava a São Paulo da garoa nos anos 1930. “Aquela cidade mudou, mas São Paulo continua sendo terra boa.”





