Escolhas feitas após a residência influenciam o início da vida profissional e os caminhos trilhados ao longo da carreira

A residência médica forma cirurgiões tecnicamente capacitados, mas a trajetória profissional do cirurgião vascular começa, de fato, quando termina o período formal de treinamento. É nesse momento que surgem decisões que não estão nos livros nem nas diretrizes. Para transformar formação em carreira, o cirurgião passa a precisar de referências práticas e conexões profissionais que orientem suas escolhas e os primeiros passos na vida profissional.

Para a diretora de publicações da SBACV-SP, Dra. Dafne Braga Diamante Leiderman, a mentoria tem papel central na transição entre a residência e a prática profissional. “Ela me ensinou habilidades que a residência não abordava, como as soft skills e a prática do dia a dia”, afirma. A Flebologia exemplifica bem essa lacuna: apesar de ser altamente demandada na rotina clínica, ainda recebe pouco espaço na formação tradicional. Soma-se a isso o fato de muitas técnicas modernas não serem amplamente contempladas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que limita o contato do residente com procedimentos frequentes no consultório privado.

No início da carreira, Dra. Dafne buscou mentoria em gestão de consultório, marketing e técnicas modernas de Flebologia — áreas que não fazem parte da grade formal, mas que impactam diretamente a relação com o paciente e a sustentabilidade da carreira. “O que diferencia um bom mentor é ensinar a prática real, aquilo que foge da literatura. O conhecimento científico é acessível; a experiência de quem já lidou com resultados, complicações, satisfação e insatisfação dos pacientes não são”, destaca. Nesse cenário, o mentor atua como um guia nos primeiros passos fora do ambiente protegido da residência.

O networking também exerce influência direta na construção da carreira e no estilo de vida do cirurgião vascular. A convivência com diferentes profissionais amplia o repertório de possibilidades e ajuda o médico a enxergar caminhos que, muitas vezes, não estavam no plano inicial. “Conforme você convive com outras pessoas, começa a vislumbrar rotinas, áreas de atuação e estilos de carreira que fazem mais sentido para os seus valores”, observa a Dra. Dafne.

Essa proximidade pode direcionar escolhas importantes dentro da especialidade, seja no Doppler vascular, na Flebologia, na cirurgia arterial ou mesmo em áreas correlatas, como acessos vasculares em Oncologia e cirurgias de coluna. Muitas dessas frentes são abordadas de forma superficial durante a residência, e o contato com profissionais experientes, aliado à mentoria, permite aprofundamento técnico e posicionamento profissional mais claro.

Um networking bem estruturado também acelera a inserção no mercado de trabalho. A integração em equipes já consolidadas facilita o acesso a ambulatórios, hospitais e consultórios estruturados, reduzindo a necessidade de investimentos iniciais elevados em equipamentos e tecnologia. Esse ambiente favorece o ganho de experiência prática e permite que o jovem cirurgião concentre seus esforços no desenvolvimento técnico e no cuidado com o paciente.

Os congressos médicos e as sociedades de especialidade ocupam um papel estratégico nesse processo. Mais do que espaços de atualização científica, funcionam como ambientes de conexão. “No congresso, você assiste a uma aula, se identifica com a visão de um especialista e consegue se aproximar, mesmo que ele seja de outro estado”, relata  Dra. Dafne. Além disso, esses eventos frequentemente divulgam cursos e mentorias, ampliando as possibilidades de formação — o que torna essencial avaliar, com critério, qual tipo de mentoria faz sentido para cada momento da carreira.

Segundo a cirurgiã, bons mentores costumam ser acessíveis e abertos ao diálogo. Uma conversa franca é suficiente para entender se a trajetória, a vivência e o posicionamento daquele profissional estão alinhados às expectativas do mentorado. Um erro comum, alerta, é escolher mentores apenas pela imagem ou pelo status, sem investigar a prática real do dia a dia. “É fundamental entender se aquele mentor vive a rotina que se almeja para a sua vida profissional”, reforça.

Quando bem conduzida, a mentoria funciona como um verdadeiro acelerador de carreira. Ela ajuda a evitar erros que podem retardar o crescimento profissional, encurta caminhos e oferece maior segurança na tomada de decisões clínicas, profissionais e até jurídicas. Além disso, contribui para algo cada vez mais valorizado na medicina contemporânea: o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Não existe uma fórmula única, mas a troca de experiências com quem já percorreu esse caminho ajuda a reconhecer quando é o momento de acelerar e quando é necessário desacelerar.

Na visão da Dra. Dafne, o início da trajetória profissional deve ser encarado como um período de dedicação intensa ao aprimoramento técnico e ao aprendizado de competências que não são ensinadas na faculdade nem na residência, como gestão, contabilidade, jurídico, marketing, relacionamento interpessoal e vendas. “Esse investimento inicial exige esforço, mas é ele que sustenta uma carreira mais sólida, consciente e alinhada aos próprios valores. Digo com propriedade, pois já fui mentorada por diversos profissionais da nossa especialidade e fora dela, e hoje sou mentora de outros colegas, ajudando a acelerar a carreira daqueles que vislumbram rotina como a minha”, conclui.

Dra. Dafne Braga Diamante Leiderman