Atualmente nos deparamos com situações que demonstram uma dificuldade do médico recém-formado em coordenar a hipótese diagnóstica

Grande parte de nossas opiniões e aquilo que ousamos defender surgem de experiências pessoais mais vívidas. Elas irão determinar, de forma consciente ou inconsciente, quais serão as “bandeiras” que iremos defender.

Pois bem, o ano é 1978, na ocasião eu tinha 10 anos de idade, morava em Mauá, região da Grande São Paulo. Filho de um bombeiro e de uma dona de casa. Orgulhoso de meu pai que havia participado e recebido condecorações pela atuação do primeiro grupamento de bombeiros no salvamento de pessoas vítimas de incêndios.

Morávamos em rua de terra e havia torcido meu tornozelo jogando bola na rua. Minha mãe determinou – temos que ir ao médico! De fato, estava bem inchado. Não tínhamos convênio médico e muito menos a opção de pagar, então fomos ao serviço de ortopedia mais próximo. Ficava em Ribeirão Pires, a 10 km de minha casa. Bom, fomos. Saindo às 5 da manhã, de ônibus, chegamos lá umas 7h30, ainda no horário. Tudo certo, consulta agendada na véspera pelo “orelhão”: para quem não conhece, um tipo de telefone público, semelhante às cabines vermelhas inglesas, mas em forma de orelha… Um luxo.

Ao chegarmos no local, nos deparamos com uma cartolina escrita em letras de forma: Não temos médico! Um funcionário usando um avental branco informava o que significava a placa para quem quisesse conferir… É, estamos sem médico, sentenciou o funcionário. Tudo ok, tornozelo inchado, sugeri para minha mãe – Vamos fazer o que o farmacêutico disse: tomar anti-inflamatório e pôr o pé para cima. Dito e feito, voltamos para casa e para minha surpresa o pé realmente voltou ao normal.

Esta experiência, na época, me fez sentir na pele como é importante termos médicos para atender a população. Então, e de forma simples, passei a pensar – “Se tivermos mais médicos, iremos resolver esse problema! Será?

Novamente voltamos ao território das experiências pessoais. Fiz Faculdade de Medicina, residência médica em Clínica Médica e, depois: residência médica em Cirurgia Geral por 2 anos, Cirurgia Vascular por mais 2 anos, estágio em Cirurgia Endovascular, mestrado e doutorado. Hoje, trabalhando em hospital de referência em Cirurgia Vascular, recebo encaminhamentos de colegas médicos, normalmente recém-formados. Obviamente não há nenhum problema nisso, e não se pode exigir que os médicos que iniciam no mercado de trabalho estejam em um nível máximo da prática médica.

O fato é que atualmente nos deparamos com situações que demonstram uma dificuldade do médico recém-formado em coordenar a hipótese diagnóstica com a anamnese, exame físico, os exames complementares solicitados e a necessidade de encaminhamento. Dito de outra maneira e de forma popular, é comum notarmos em uma ficha de encaminhamento que não se combina “o lé com o cré”; dito popular que traduz uma situação em que falta conexão entre o que se pensa e como se atua. Estabelece-se, assim, um raciocínio confuso que se inicia na hipótese diagnóstica e resulta em condutas e exames desnecessários, ao mesmo tempo em que não se realiza os exames que deveriam ser feitos.

Recentemente, foi realizada a avaliação dos cursos de Medicina no Brasil por meio do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que é uma modalidade específica do ENADE para Medicina. Com foco em competências essenciais de formação médica, foi observado que, em 1/3 dos cursos, os alunos egressos dos cursos de medicina não têm conhecimento para integrar um plano de cuidados mínimo aos pacientes. Não que se tenha exigido um conhecimento difícil de ser alcançado nas avaliações, buscou-se apenas contemplar atributos básicos mínimos ao médico recém-formado.

Este número preocupante de médicos, em torno de 30%, que não alcança os atributos mínimos requeridos, fez acender uma luz amarela. Apesar de parecer simples, a solução de nosso sistema de saúde não consiste em se permitir a abertura de inúmeras faculdades de medicina para suprir o objetivo apenas de “ter médicos”, é muito mais complexa que isso. Precisamente com o objetivo de se evitar que alguém ao procurar o médico em uma unidade de saúde não leia o mesmo anúncio que vi na cartolina em 1978 – “não temos médico”.

Com isso, passou-se a oferecer médicos sem preparo, normalmente aos mais necessitados, resultando em uma situação onde a parcela mais humilde da nossa população não tenha acesso a serviço médico adequado. É importante que o profissional que exerça o trabalho médico em qualquer nível de assistência ou local do país “seja médico” com as habilidades mínimas necessárias.

Financiamento estrutural, critérios na abertura dos cursos de medicina, organização de equipes multiprofissionais capacitadas, planos de carreira com oferta diferenciada ao profissional que se mantém atualizado e que mais se dedica ao atendimento aos pacientes parecem ser o “pontapé inicial” que pode incrementar nosso Sistema Único de Saúde. Não podemos esquecer que problemas complexos exigem soluções complexas e acompanhamento contínuo dos resultados.

Para ilustrar como as soluções são complexas e exigem acompanhamento contínuo, recentemente, a ALESP (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) criou a tabela SUS Paulista. Com fator multiplicador da tabela SUS nacional, normalmente em quatro vezes, a medida procurou oferecer aos profissionais e instituições hospitalares um reajuste nos atendimentos e cirurgias.

Observa-se, entretanto, e por experiência própria, que não raro os hospitais que recebem os valores acabam se apropriando dos mesmos e oferecem um repasse inferior referente a honorários de procedimentos e materiais. Ao questionar essa prática ao hospital, fui surpreendido com o afastamento de atividades e quebra de contrato de trabalho de 25 anos no mesmo nosocômio. Destarte conclui-se: além de se organizar o sistema de atendimento de saúde, é necessário monitorizá-lo constantemente.

Cumpre ressaltar novamente o papel das Sociedades Médicas e em particular da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular. Esta, tem papel importante na sugestão e participação em todas as etapas que envolve o atendimento médico do cirurgião vascular: organizar os concursos de especialistas, manter sua qualidade por meio de educação médica continuada, recomendar normas de boas práticas e guias de conduta, organizar congressos, simpósios e cursos de atualização e realizar atividades de extensão com informação de qualidade que a população exige. Este papel importante das Sociedades Médicas deve ser valorizado em todos os setores de nosso país.

Estabelece-se assim um elo virtuoso entre profissionais especialistas, governo e população – Como deve ser!

Dr. Marcelo José de Almeida

Vice-diretor de Defesa Profissional da SBACV-SP; professor da Faculdade de Medicina de Marília – Famema/SP; médico associado titular SoBRICE – Sociedade Brasileira de Cirurgia Endovascular; médico associado titular SBACV – Sociedade Brasileira de Cirurgia Vascular; e Mestre e Doutor – UNESP Botucatu/SP