Sem médicos livres para examinar, diagnosticar e decidir, não há cuidado verdadeiro
A Medicina nasceu como uma profissão ancorada na confiança social e na responsabilidade técnica. Ao médico, foi historicamente atribuído o dever de ver, examinar, ouvir, avaliar e decidir com base na ciência, na experiência e na ética, assumindo integralmente as consequências de seus atos. Esse papel nunca foi um privilégio, mas uma necessidade civilizatória: não existe cuidado em saúde sem autonomia técnica.
No entanto, silenciosamente, esse fundamento vem sendo corroído. Não por falhas intrínsecas da Medicina, mas pela substituição progressiva do juízo clínico por ordens administrativas, despachos impessoais e interesses que não dialogam com a realidade do paciente. Cada vez mais, o médico é impedido de exercer plenamente sua função: não vê quem deveria ver, não examina quem deveria examinar, não decide quando deveria decidir. A avaliação médica passa a ser condicionada, filtrada ou postergada por instâncias que jamais estarão diante do sofrimento humano, do risco iminente ou da complexidade clínica.
Quando se normaliza que alguém possa ser privado de avaliação médica adequada — seja por conveniência institucional, logística ou critérios alheios ao cuidado — rompe-se um princípio elementar da Medicina: nenhum ser humano pode ser reduzido a um caso abstrato ou a um dado administrativo. A partir desse ponto, a saúde deixa de ser ciência aplicada e passa a ser mera gestão.
Essa lógica se aprofunda quando a prática médica passa a ser subordinada também a estruturas econômicas e administrativas que operam sob a linguagem da eficiência, da padronização e da contenção de despesas. Planos de saúde, auditorias, protocolos rígidos e ordens automatizadas passam a ditar o tempo da consulta, a profundidade da investigação diagnóstica, o acesso a exames e até a continuidade do cuidado. O médico é pressionado a produzir mais, em menos tempo, com menos recursos, sob ameaça permanente de sanções contratuais, descredenciamento ou restrições operacionais.
O ato médico, que deveria ser singular, torna-se padronizado; o paciente, que deveria ser único, torna-se número; e o profissional, que deveria exercer discernimento clínico, passa a cumprir fluxos. O resultado é uma Medicina defensiva, empobrecida e burocratizada, na qual o medo de consequências administrativas frequentemente supera o compromisso com a melhor conduta técnica. Essa subordinação não melhora a saúde coletiva — ao contrário, compromete a qualidade da assistência, fragiliza a formação médica, deteriora a relação médico-paciente e introduz um conflito ético permanente entre fazer o que é correto e fazer apenas o que é permitido. Quando ordens externas passam a valer mais do que o exame clínico, a Medicina deixa de ser ciência e passa a ser execução.
O fim da Medicina, portanto, não ocorre por um ato explícito, mas por um esvaziamento progressivo de sua essência. Ele se instala quando o médico é afastado da decisão, quando sua palavra técnica perde valor e quando sua autonomia é vista como obstáculo, e não como garantia de segurança.
Uma sociedade que aceita esse processo não está apenas aviltando uma profissão — está fragilizando suas próprias bases éticas. Onde o médico não pode exercer plenamente seu juízo clínico, o corpo humano deixa de ser território da ciência e passa a ser objeto de conveniência institucional. Isso afeta todos: o paciente vulnerável, o cidadão comum, o profissional honesto e a credibilidade das próprias instituições.
Defender a autonomia técnica da Medicina não é um ato político, ideológico ou corporativo; é um compromisso com a civilização. Sem médicos livres para examinar, diagnosticar e decidir, não há cuidado verdadeiro — há apenas gestão de risco, contenção de custos e exercício de poder. E onde a Medicina é silenciada, não se perde apenas uma profissão: perde-se um limite ético fundamental entre cuidado e arbitrariedade.

Dr. Michel Nasser
Vice-diretor de Defesa Profissional da SBACV-SP




