Dra. Dafne Braga Diamante Leiderman analisa como residentes e jovens especialistas estão transformando a formação, a prática clínica e a incorporação de tecnologias

A Cirurgia Vascular vive um momento de transição impulsionado principalmente pela atuação de residentes e jovens em início de carreira que vêm redesenhando o perfil da especialidade e a forma de inserção no mercado de trabalho. Segundo a diretora de publicações da SBACV-SP, Dra. Dafne Braga Diamante Leiderman, uma mudança clara nas escolhas de formação vem sendo observada. “Cada vez mais, recém-formados optam por áreas como Doppler vascular e flebologia moderna, enquanto a busca por especializações tradicionais em endovascular e radiointervenção tem se tornado menos frequente. E muitos jovens entram diretamente no mercado ambulatorial, com foco em consultório particular e tratamentos modernos, o que muda a dinâmica da especialidade e torna a concorrência mais precoce”, analisa.

Esse novo cenário se reflete na forma como os jovens profissionais estruturam sua prática. Cada vez mais cedo, eles investem na montagem do próprio consultório, seja por meio da sublocação ou aquisição de salas, e na incorporação de tecnologias que agregam valor à consulta, como ultrassom Doppler, lasers, resfriadores de pele e equipamentos avançados para escleroterapia com espuma. “Hoje, o cirurgião vascular tenta agregar esse valor imediatamente. O Doppler já faz parte da consulta, realizado no próprio consultório, otimizando o diagnóstico e a experiência do paciente”, destaca a especialista.

Esse movimento contrasta com gerações anteriores, nas quais a adoção dessas tecnologias ocorria de forma mais tardia, muitas vezes restrita ao ambiente hospitalar. A mudança foi acelerada, entre outros fatores, pela ampliação do acesso ao ensino médico após a pandemia. Cursos que antes eram exclusivamente presenciais passaram a ser oferecidos em formato on-line, democratizando o conhecimento em todo o país. “Hoje, o vascular que está longe dos grandes centros consegue se atualizar, fazer pós-graduação e até cursos internacionais sem sair da sua cidade”, observa Dra. Dafne.

Outro avanço relevante é o uso crescente de simuladores, especialmente na formação endovascular. Essas ferramentas contribuem para aumentar a segurança dos recém-formados, preparando-os para assumir plantões, procedimentos e responsabilidades hospitalares com mais confiança.

De acordo com a Dra. Dafne, as redes sociais também passaram a desempenhar papel importante nesse processo. Muitos cirurgiões vasculares compartilham sua rotina profissional, estrutura de trabalho e resultados, tornando-se referência para colegas mais jovens. Essa exposição ajuda a despertar interesse por determinadas áreas da especialidade e incentiva a busca por capacitação técnica. “As redes sociais acabam funcionando como um instrumento de inspiração, onde a pessoa se identifica com aquela rotina e passa a buscar cursos, treinamentos e aprimoramento para implantá-los à sua própria realidade”, observa.

Ao mesmo tempo, ela faz um alerta: “A presença digital deve ser guiada pela ética, pela transparência e pela segurança do paciente. O aprimoramento técnico vem antes do marketing. Não é sustentável vender algo que não se executa com segurança e bons resultados. O paciente precisa encontrar no consultório a mesma pessoa que ele viu na rede social.”

Além dos desafios técnicos, a Dra. Dafne chama atenção para uma lacuna importante na formação dos cirurgiões vasculares: o desenvolvimento de soft skills. Gestão, precificação, planejamento financeiro, marketing estratégico, aspectos jurídicos e liderança de equipes são competências essenciais, mas que não fazem parte da residência médica. “Muitos jovens têm uma excelente formação técnica, mas saem despreparados para empreender. Não sabem precificar, contratar, treinar equipe ou estruturar um consultório de forma sustentável”, aponta.

Apesar dos desafios, a avaliação é positiva. A nova geração tende a ser mais decidida, valoriza a qualidade de vida e busca uma relação mais próxima e humanizada com seu paciente. O marketing agressivo perde espaço para uma comunicação mais autêntica, baseada em conteúdo, educação e confiança. “Hoje, o paciente cria vínculo antes mesmo da primeira consulta. Ele chega já conhecendo o médico, o ambiente e a forma de trabalho, o que fortalece a relação médico-paciente”, relata.

Diante da experiência e seu amplo conhecimento, Dra. Dafne aconselha os colegas em início de carreira a filtrarem o excesso de informações, respeitarem a própria essência e manterem o foco no cuidado com o paciente. “Nós somos bombardeados pelo sucesso alheio o tempo todo, mas precisamos buscar o que faz sentido para a nossa realidade. Independentemente da tecnologia disponível, o que realmente importa é o resultado final e a experiência do paciente. Fala-se que 2026 será regido por duas palavras: simplificação e calma. Depois de anos muito acelerados, é hora de desacelerar, respirar e ressignificar. Espero que isso faça sentido aos jovens cirurgiões vasculares que estiverem lendo esta matéria.”

Dra. Dafne Braga Diamante Leiderman